Sou uma miúda com um bocado de sorte. Sempre tive tudo o que queria, sem nunca lutar muito pelas coisas. Bastava insistir um pouco, explicar as minhas razões, sempre certas claro, e esperar que me concedessem os desejos como se todo o mundo fosse a minha fada-madrinha que agitava a varinha de condão e tornava tudo possível.
Tenho sorte porque as únicas mortes que presenteei foram as minhas, da alma, quando um amor muito grande deixava de ter ar por onde respirar, e aí eu vertia a minha alma pelos olhos, escrevia ainda mais e o meu mundo parecia um desabamento mesmo por baixo dos meus pés. Mas como tenho sorte e sou p'ra lá de optimista, penso que o tmpo cura tudo e quando não cura, acalma, e então a minha alma toa amachucada voltava aos poucos para o meu pequeno corpo e me tentava dizer que ia ficar tudo bem. E aí, quando a alma voltava meio tímida, eu dava-lhe festas, ela ia ficando outra, outra vez toda direitinha, como passada a ferro, porque é o que o tempo nos ensina: a ente…