Separadores

ATENÇÃO

Este blog é pessoal demais. Este blog dá de si e do seu espaço, da sua liberdade, do seu pensamento e, sobretudo, do seu coração.
Acima de tudo: "Eu escrevo como falo, como sonho, como penso."
Por isso SEGUE O QUE SENTES.

31/07/2009

A Carta

Ela olhava o rio sobre a varanda, a água brilhante, o sol radiante, a brisa leve. Para muitos era o que bastava mas ela continuava a sentir que lhe faltava algo, um pedaço seu que alguém lhe tinha roubado.
Foi ao quarto e pegou numa caneta preta e numa folha de papel que estava rasgada numa das pontas. Voltou para a varanda e sentou-se no chão, imovél, olhando para o papel. Começou por fazer um risco mas quando deu por si tinha feito um desenho de duas pessoas, abraçadas. Voltou a folha para o seu verso, que estava em branco e decidiu escrever uma carta.
« Ainda sinto um vazio cá dentro. Não sei se é a falta das tuas mãos dadas com as minhas, a falta de ouvir as tuas palavras, de sentir a tua mão no meu rosto, de me beijares a testa, de mergulhar no teu doce olhar, de ficar vidrada no teu sorriso. Não sei se é a falta das conversas sobre tudo que d'antes eram frequentes ou se é a falta dos longos momentos juntos, unidos, no nosso mundo à parte, pintado com cores nunca antes vistas. Eu não sei se é a falta de sentir o teu sabor, de receber o teu calor, de sentir o teu abraço longamente.
Eu pensava que iria ser tudo mais fácil, menos confuso.
Sei que já te magoei como ninguém mas não te esqueças que já te amei como nunca. Já foste tudo o que precisava para sorrir. A minha razão.
Sonhar, sonhámos os dois, demasiado alto.
Nunca quis acabar com todo o encanto que nos envolvia, mas tu falhaste no teste. A primeira vez que falhaste comigo. Agora sei que a culpa é minha. Eu tinha-te prometido que os testes tinham acabado mas não cumpri e o teste final foi o fim. Eu falhei muito contigo. Desculpa.
Eu não sei se sinto falta do teu amor, mas sei que tu fazes-me falta.
Desculpa pela batalha que não fui capaz de conquistar, tu que eras o príncipe do reino das cores fora da paleta*.»
Guardou a carta escrita a tinta preta, porque a saudade era maior que a coragem e nada a faria voltar atrás.

(imagem encontrada)
Catarina Gaspar

*paleta - Tábua em que o pintor dispõe e combina as tintas.

24/07/2009

O banco verde do jardim


Era no banco verde do jardim que costumavam estar, juntos, abraçados, fazendo companhia um ao outro. Ela agora estava sozinha, em silêncio, escutando os pássaros, sentindo os seus cabelos castanhos dançarem ao som do vento. Sentia-se perdida naquele lugar, mas era o único sítio que lha trazia calmaria e paz à sua mente. Um milhão de coisas passavam pela cabeça. Do banco via-se um rio, grande e brilhante. Sonhava com o dia em que partira sem destino. Agora nada a impedia, nada a prendia, nada lhe faria voltar atrás. Apenas queria largar e esquecer, tentar sorrir de novo, sozinha ou acompanhada. Deitou-se no banco, com as lágrimas a cair pela face, fechou os olhos e caiu num sonho profundo. Sonhou com o dia em que se conheceram, naquele mesmo banco verde de jardim, num dia de chuva. Ela morava ali perto e ele também mas nunca antes se tinham cruzado. Ela tinha saído de casa a meio de uma discussão com os pais e tinha ido para jardim, vagueando e acabando-se por sentar naquele banco. Colocou os pés no banco, agarrando com os braços em volta das pernas e deitando a cabeça sobre os joelhos. Num dia como este não se via ninguém na rua. As suas lágrimas eram disfarçadas pela água da chuva e os soluços do seu choro, pelo barulho da chuva a cair. Por ali passava um rapaz, mais alto que ela, olhos brilhantes e cabelos castanhos, tinha a pele morena e a roupa ensopada. Andava à chuva e sentou-se junto dela, sem uma única palavra dita. Ela apercebera-se de uma presença e levantara a cabeça, ficando olhos-nos-olhos com o rapaz. Ele sorriu-lhe o que fez com que ela sorrisse também. O seu sorriso era tão encantador, único, diferente, mágico. Passado algum tempo de silêncio e de impaciência, ele finalmente dirigiu-lhe uma pequena frase "Está um lindo dia!". A voz era grave e doce ao mesmo tempo. Ela ficou perplexa a olhar pra ele, nunca tinha conhecido ninguém que gostasse de chuva como ela gostava. Fez-lhe um sorriso tonto e disse que sim. Mais silêncio. Ela parara de chorar e ele olhara em frente, observando atentamente a chuva. Ela reparava em cada pormenor da cara dele, olhava-o como ninguém. Sentiu borboletas na barriga, olhava para os lábios, para os olhos, queria-o por perto, queria senti-lo. Ela olhou para baixo e assim permaneceu. Ele olhara para ela, reparava nas curvas do seu longo cabelo castanho. Os seus olhos eram verdes, grandes e brilhantes também. Os lábios eram carnudos, tinham um tom rosa claro, suave. O seu sorriso espalhava brilho pela cara e dava-lhe um ar acriançado, leve, doce.
Os olhares acabaram por se encontrar novamente. Notara-se uma química especial e diferente entre estes jovens, era algo inexplicável. Cada vez estavam mais próximos. As mãos, agora, tocavam-se. Surgira um beijo, lento, intenso, terno, único.
Estavam completamente perdidos de amor. Será possível alguém se apaixonar sem saber nada um sobre o outro?
Fizera-se tarde e agora começara a escurecer, já sem chuva. Estava na hora de cada um seguir o seu rumo mas o silêncio permanecia. Ele acabara por dizer algo que ela não percebeu. Ela apenas sorrira com o mesmo tom de sorriso de quando chovia. Combinaram encontrarem-se no dia seguinte, à mesma hora, com chuva ou com sol, mesmo não sabendo nada um do outro.
Ela acordara agora, depois deste sonho profundo. Pegou numa chave e com a ponta escreveu no banco verde do jardim "SAUDADES TUAS".
Catarina Gaspar

23/07/2009

O Ciclo da vida

« Já perdoei erros quase imperdoáveis, já tentei substituir pessoas insubstituíveis e esquecer pessoas inesquecíveis. Já fiz coisas por impulso, já me decepcionei com pessoas que nunca pensei me decepcionar, mas também já decepcionei alguém. Já abracei para proteger, já ri quando não podia, fiz amigos eternos, já amei e fui amado, mas também já fui rejeitado, fui amado e não amei. Já gritei e saltei de tanta felicidade, já vivi de amor e fiz juras eternas, magoei-me muitas vezes. Já chorei a ouvir uma musica e a ver fotografias, já liguei só para ouvir uma voz, apaixonei-me por um sorriso, já pensei que fosse morrer de tantas saudades, e tive medo de perder alguém especial (e acabei por perder). Mas vivi. E ainda vivo! Não passo, simplesmente, pela vida. O melhor mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve, e a Vida é muito para ser insignificante. »

Charlie Chaplin